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Nostradamus, a história de uma canção, com uma estória de seu cantante

 

Nostradamus, a história de uma canção

Nostradamus, a história de uma canção, com uma estória de seu cantante

Por Eduardo Dussek

Em 1979 eu acreditava mais no Apocalipse do que acredito agora, quando  o próprio já está acontecendo. Para mim, o fim do mundo era dado como certo: fosse com uma guerra nuclear, a temida terceira guerra mundial; ou fosse com um choque de um asteroide gigante sobre a terra. Confesso que a minha vida, naquele ano, estava tão emperrada, mas tão emperrada, que acreditar numa solução final para humanidade aliviava minhas explosivas depressões. Meus amigos compartilhavam essa certeza e, com um escarnio vestido de requintado humor, somados a doses cavalares de bebida nos botecos da zona sul carioca, chegavam a comentar que “comprar casa em Búzios” não era bom negocio,  pois a ponte Rio-Niterói iria ruir em 1984.

Não riam tudo ainda. Alguém,  não quero acusar quem, afirmava que Nostradamus previra que o mundo não chegava aos dois mil (e que Orwell, com seu livro referente à data fatídica, 1984, quando o “grande irmão” tomaria conta da gente…., teria sacado tudo). De minha parte, já achava que estávamos dominados pelo fim. E tudo se resumia na especulação financeira. Não poderia imaginar que o mundo não acabaria e que a palavra Big Brother viraria nome de programa popular de TV. Mas, naquele ano niilista, comigo barbado e algo envelhecido para os meus vinte e poucos anos, cabelo cumprido desgrenhado, via-se o que acontecia com os bairros de Ipanema, Leblon, Copacabana. Prédios e mais prédios se avolumando, uma migração nordestina febril e desenfreada, mal acomodada aqui no sul devido à mão de obra a preços de banana e, por outro lado, o sonho dourado de possuir uma esquadria de alumínio, com vidro fumê, em seu imóvel (todos trocavam as esquadrias de madeira de lei e jogavam fora, em prol dos horrendos alumínios e  vidros escuros. Anos sombrios! Os (maus) milicos estavam no poder.

As minhas composições com Luís Carlos Góes andavam proliferas, mas não nos davam muito dinheiro. Ney Matogrosso ainda não gravara nenhuma canção nossa, e meus parcos ditos “sucessos” já haviam escorregado nas vozes poderosas de Marilia Pera ou das festivas Frenéticas, havia dois anos. Minha conta bancaria estava vazia e minha cabeça e meu fusca azul estavam enferrujando.
Naquele ano de 79, nada acontecia. Como sempre detestei marasmo, fui buscar no passado o remédio do futuro. Num dia ardido, resolvi pegar uma musica minha de 1973, e jogar fora sua letra ( da qual não gostava do que escrevera) e refazê-la, com outro poema pra mesma melodia (da qual gostava muito).

A letra anterior era um espanto! Escrita quando eu ainda engatinhava como compositor. No ano de 73, quando fiz a canção, eu era um “semi-hippie ma nom tropo”. Afinal, eu trabalhava na companhia da atriz Camila Amado, como pianista e ator quase amador. Era um bom emprego, deixem estar, que qualquer hora contarei sobre isso.

Ocorre que a tal canção, cujo nome o vento levou, nesse tempo, tinha me ofertado meu primeiro vislumbre de sucesso, como compositor. Um dia, correra um boato na companhia de Camila, que a mega-poderosa Maria Bethânia ouvira a musica. E gostara. Eu não podia acreditar. Era fã incomensurável da cantora  e não fazia ideia  de como a tal canção pudesse ter agradado à semelhante diva.

Mas, quando soube do boato, o que me deixou  tenso é que, embora adorasse a Bethânia já há muito tempo, eu não gostava nada, nada, da letra da canção. Alias, de cujos versos só me lembro do pior. Algo assim,  vejam só:  “ eu acho também, que eu sou um cadáver que aprendeu a movimentar”. Misericórdia!!! Como assim? “Walking  dead” em 1973? Tolinho, esse garoto, mero tolinho…

Cantava isso mais por sentir que chocava as pessoas; e por mais que acreditasse que a deusa Maria tinha arte suficiente pra transformar qualquer atirei o pau no gato em Carmen de Bizet, preferia que ela cantasse  outra coisa, como a balada “Cabelos Negros”, o fado  “Ave” ou o blues “Moderno Pássaro Andante”; melodias ricas que eu também havia feito, com lindíssimos poemas de Luís  Antônio de Cassio, meu principal parceiro musical na primeira metade dos anos 70… ( sim, minha carreira de compositor tem bem mais do que quarenta anos. Para informação de vocês, minha primeira canção data dos nove, dez anos de idade. Mas isso é um assunto pra ser discutido depois, com meus advogados, tá certo? Afinal, pra todos efeitos, eu tenho quarenta anos de carreira e não ando sozinho não, viu? Não mexe comigo! Você não me conhece. Mas eu lhe conheço! Eu sei seu endereço, tenho as fichas de sua família e sei dos trajetos que costuma percorrer. Assim sendo, é melhor mudar de assunto, não é mesmo?).Posto isso, sigamos em frente, mas com cautela. Por favor!

Pensei sobre a estória, não confirmada,  da maravilhosa baiana vir a gravar  a tal canção: “será que seria uma pegadinha?” ( ou um “trote”, como se falava na época). Bem verdade que, nessa época, eu já conhecia o compositor e padrinho-anjo-da guarda Sergio Natureza, que me fora apresentado pela minha “produtora” ( também amadora com eu, mas muito chique) Mariinha. Ele, que era amigo de todos os baianos  famosos da época,  poderia muito bem , por um acaso, sem eu saber, ter mostrado a canção para a Maria mais poderosa da MPB; ou somente cantarolado uma parte… e ela poderia ter se interessado. ( E essa é a única hipótese plausível, mas também jamais confirmada).

O fato é que a minha patroa Camila Amado, quando soube da notícia, despachada e ousada que era,  praticamente ordenou que eu cantasse a música no final do espetáculo, dando contas à plateia da boa nova.  Ela era dada a essas quebras de  protocolo. E eu a cantei, horrorizado. De certo mesmo é que me lembro que apresentei a canção para uma audiência constrangedoramente estupefata. Tinham acabado de assistir uma comedia rasgada com, simplesmente: Marco Nanini, Marieta Severo e Wolf Maia, além da própria Camila, nos papéis principais. Por que teriam que ser massacrados com semelhantes versos decrépitos da infeliz canção, dos quais, graças aos bons Budas, esqueci-me para sempre, por um providencial  efeito-trauma, já que eram algo de horripilantes. Tive náuseas e febre alta  para chegar até ao fim da interpretação.

Claro que o sonho dourado de um compositor, principalmente  um novato com eu, em 73, era que uma deusa como a Maria Bethânia gravasse algo seu. Mas Bethânia e o Universo já tinham juízo, à essa época. Provavelmente não cairiam nessa cilada. E tudo não passou de um tremor de pequena importância na escala Richter de meu solo emocional.

Corta pra 1979 novamente, foca em mim, um pouco mais esperto e menos ( digamos que, um pouco menos…) neurótico. Estava ao piano, tentando sacudir a crise, quando me vem à cabeça a malfadada canção de 1973, da qual, como disse e faço questão de reafirmar, meu cérebro hoje se recusa a lembrar de outros trechos de letra e até mesmo do antigo nome. Porém, quando comecei a tocá-la ( somente a melodia),  uma chuva de apocalipses caiu sobre minha cabeça, numa explosão catártica,  com profundo senso de humor.

Daí a letra saiu inteira. Como uma gargalhada só.
Lembro-me que eu queria chegar “em esquadrias de alumínio caindo dos prédios…. com vidros fumê espatifando-se sobre transeuntes”…, tamanha era minha sanha e desprezo pelas gentes ascendentes que colocavam tais esquadrias em nosso Brasil, ao seu redor. Que menino revoltado, este era, meu Deus! Que revolta!

Mas , da catarse do passado, nascia a luminosa Nostradamus:

Naquela manhã…Eu acordei tarde, de bode
com tudo que sei…
Acendi uma vela, abri a janela e pasmei!
Alguns edifícios explodiam, pessoas corriam
Eu disse bom dia…ignorei!
Telefonei
Prum toque e tenha qualquer e não tinha!
Ninguém respondeu!
Eu disse: Deus! Nostradamus!
Forças do Bem e da Maldade
Vodu! Calamidade! Juízo Final…então és tu?
De repente…na minha frente
a esquadria de alumínio caiu
junto com o vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu!
Começou tudo a “carcumer”
Gritei, ninguém ouviu…E olha que eu ainda fiz: psiu!
O dia ficou noite, o sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha, encontro Carlota, a cozinheira…
morta! Diante do meu pé, Zé! Eu falei, eu gritei, eu implorei:
Levanta! Me serve um café…que o mundo acabou!!!

(editora Vitale, Musica e letra: Eduardo Dussek)
 

O final do mundo estava nos apartamentos de Copacabana (de onde eu já ambientara a fatídica “A deputada caiu“, escrita circa 1976….).
Caía o pano dos anos 70. Alô anos 80, vamos combinar que vocês já chegaram rasgando!!!

Pois não é que algum tempo depois, numa semana de dezembro, me liga alguém da Tevê  Globo, avisando que um festival estava sendo criado pra 1980. Não havia garantia d’eu ser classificado, mas eles estavam recrutando as novas gerações de compositores de todo país para que enviassem musicas, para garantirem que uma galera mais nova estaria no concurso. Eu já era meio conhecido por lá. Sabiam do meu lado compositor e cantor. Já aparecera no “Fantástico” cantando “Ele não sabia de nada” e Marilia Pera já dera o ar de sua graça, acho que numa novela ou musical de TV, cantando Alô Alô Brasil ( parceria com Luís Antônio de Cassio e Roque Conceição) que fora feita especialmente para ela. Mas tudo isso não era garantia de nada, nenhum privilégio ou chance de classificação, claro.

Mas, não custava tentar. Melhor do que sentir aquela sensação de querer se mandar do Brasil, que já ia forte no meu  peito. Lembro-me de um pensamento que me veio a cabeça, cuja resposta do Universo,  me faz rir até hoje. Muito ranheta, praguejei para o alto: “vou me inscrever, mas se não der certo, largo a carreira!!”

Daí escutei uma voz na minha cabeça, vinda do astral, que dizia: “ Que carreira, meu filho? Você ainda não fez porra nenhuma, Cacilda!”

Sem comentários…

Inscrevi Nostradamus e mais uma canção, acho. Semanas depois veio a noticia, Nostradamus  foi classificada. Excitação.

Ainda incrédulo, aportei na emissora no inicio de 1980 para combinar o arranjo da musica. Haviam recrutado um maestro, seu nome era Roberto Gnatalli. Perguntei: parente do Radamés? Disseram: sobrinho! Gostei e torci o nariz um pouquinho, besta que era. Explico: nada pessoal com o grande Roberto. Afinal, as aguas clássicas voltavam a banhar minha praia. Isso era bom. Mas Nostradamus era uma musica louca de pedra. Podia  desandar.

Não desandou.. O rapazinho era bom pra danar. Meteu-lhe uma caneta na musica, que ficou com ares de sinfonia. Belíssima, não restava duvidas. Mas será que o publico concordaria? Minha pouca imagem na imprensa e no under-under-under-ground era de irreverencia e uma dose industrial de insanidade. E ia nisso aí um pouco de fantasia e muito de realidade. Fui ensaiar um dia antes da apresentação classificatória, no antigo teatro Fênix, no Jardim Botânico, RJ. Um orquestrão me acompanhava; eu,  ao piano. Ainda bem que o maestro Roberto não parava de sorrir, simpático. Isso me acalmava bastante, pois nunca havia tocado com uma orquestra. Estava, na verdade, totalmente com aquela nossa parte funicular  traseira na mão, musicalmente falando.

Quando cheguei em casa, meditei. E no meio da meditação veio a ideia: um fraque de maestro e pianista e… cuecas! Esse ultimo detalhe, pensei,  significaria tudo.

Peguei na gaveta uma cueca branca de nylon, tipo jogador de futebol, e mandei pra uma amiga bordar umas lantejoulas discretas, para dar um ar de roupa de gala (risos). Da casaca, a própria Globo se incumbiu. Mandou  a vestimenta completa, claro. Quando entrei no camarim, havia um reluzente fraque, com colete, camisa apropriada, gravata borboleta, calça talhada, sapatos de verniz e tutti quanti.

Na hora “H”, esperei o camareiro sair da sala e tirei toda a parte de baixo do traje clássico, pus umas botinas, meião de jogador de futebol, ambos pretos, se é que me lembro da cor, e entrei em cena! Sentei no piano e debochadamente joguei o rabo da casaca para trás e puxei para frente o banco do piano de cauda. Umas sonoras gargalhadas sobrevieram da plateia. Pronto, não estava mais de cu na mão.

Cantei como se  estivesse num cadafalso e me auto obrigasse a cuspir na cara do carrasco, as gargalhadas. Não tenho certeza, mas depois da parte final da música, ou seja: do “levanta! me sirva um café ,que o mundo acabou!”, acho que me joguei nos teclados do piano, me fingindo de morto. Enquanto o tímpano ( aquele instrumento enorme de percussão) e o “tutti di orquestra” executavam os acordes e ribombadas finais. Urros com aplausos  soaram por toda uma plateia.

No dia seguinte, eu não só passara a ser conhecido em todo o Brasil , tipo “coast to coast” porque, afinal, nosso país só tem uma costa. Mas o poder da TV Globo já era, nesse tempo, incomensurável. Acho que a própria  Gravadora Som livre gravou a faixa e jogou nas  rádios. Estouramos.

Meses depois, fui concorrer na finalíssima no Maracanãzinho. Vestido de anjo maldito, de preto e asas, assisti, então, a um fenômeno de adrenalina que  só tinha vivido  na primeira vez que entrei em cena pra cantar, havia já alguns anos. Uma zoeira na cabeça, uma palpitação galopante. Só que dessa vez me controlei. E surfei a onda. Parecia um passe de magica: andava pra um lado do palco e a plateia do estádio levantava inteira; andava pro outro,  a mesma coisa. Um delírio comandado por mim. Parecia o seriado americano “A Feiticeira”, lembram?

Vou te contar: como não sou Marta Rocha, não fiquei nem em segundo lugar. Acho que não fiquei em lugar nenhum, na classificação. Um desclassificado, porém um desclassificado feliz! Pois ganhara uma carreira.

O mundo se acabava na canção, mas o meu (re)começava ali.

Janeiro de 2016

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2 Comentários Comentar

  • Delicia ler esse texto, pena que acabou… rsrs
    Sou baiana, tambem Maria, mas nem um pouco deusa.
    Me diverti ao assisti ao show de Dussek no Café Teatro Rubi (abril/2017), em Salvador e lembrei de um show que ele fez, no inicio dos anos 80 no circo Troca de Segredos, em Ondina. Maravilhoso!
    E que venham mais textos, historias, livros, escritos com essa pegada.
    I love you baby!
    Baptuba! Uap Baptuba!
    Uau! Uau! Uau!

    Comentário by Maria Lucia — 12 de Abril de 2017 @ 08:00

  • Querido Dusek..

    Já era sua fã antes do Festival da Globo, lia a revista Pop que publicava notícias suas, sempre admirei sua irreverência, criatividade e inteligência, último show seu que assisti foi no Radio City Café em Santos, onde moro, falei com vc depois..Quando vc volta a se apresentar aqui? Adoraria vê-lo novamente ao vivo…Também adorei seu texto, já era de esperar…sucesso sempre!

    Beijos

    Marta

    Comentário by Marta Ceará — 6 de junho de 2017 @ 18:59

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